Comportamento

Meu protesto meio brasileiro, meio canadense. Sem cebola.

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Não vou me referir ao descobrimento do Brasil ou a colonização para justificar o estado atual do país. Mas, quero me atentar somente aos últimos anos. Sem remeter a ditadura, diretas ou qualquer outra coisa. A minha ideia não é parecer superior ou inferior a alguém, mas somente dar credibilidade a minha opinião sobre os fatos atuais, baseada nas opiniões que já dei antes, sobre fatos recentes.

Eu fiz boca de urna pro Collor. Pega essa. Era uma criança ainda, quase adolescente, nem sabia o que estava acontecendo.  A rua inteira estava em festa e eu estava no meio. Se bem que o adversário era o Lula, olha só. Na época do impeachment, a Globo marcava as horas e chamava pra Paulista. Eu achava sensacional porque não tinha aula. Povo na Paulista e eu vendo He-Man em casa.

Eu me lembro de política desde as diretas em 1984/1985. Lembro do Sarney e de todos depois. Todos os planos e cortes de “zeros” ate chegar no real em 1994. O primeiro mandato do FHC foi excelente (1994-1998). O segundo, já nem tanto (1998-2002). Achei que se perderam um pouco. Daí veio o Lula. Muito inteligentemente, continuou com a politica anterior. Alias, Lula foi o melhor relações públicas que o Brasil já teve. Chamavam o FHC de “Viajando Henrique Cardoso “, lembra? Pois é, o Lula viajou mais e com razão. Sua popularidade e sua história o fizeram muito popular fora do Brasil também.

Como o mercado financeiro e movido por especulações, o popular presidente trouxe uma euforia pro Brasil. Parecia que o país estava crescendo, mas não estava (comparado com a média mundial). Era só especulação. Continuava, desde sempre, a  ter pouquíssimos e insuficientes investimentos em infra-estrutura. A indústria estava largada, como sempre, desde sempre.  Eu via isso de perto, pois ja trabalhava com indústrias viajando o país todo.

Daí veio a crise mundial em 2008. Os investidores retiraram boa parte de seus investimentos de todas as partes do planeta, do Brasil inclusive. A petulância ou a falta de informação levaram o então Presidente Lula a chamar aquilo de “marolinha”. Mas o Tsunami não tardou em chegar.

Na verdade, ele sempre esteve ali. O Brasil nunca cresceu de verdade. Era só especulação financeira em uma euforia sem base alguma, por causa de um presidente extremamente competente em vender a imagem do país (como o anterior também o fez).

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Capa da revista ” The Economist”

Como ninguém conhecia o que realmente se passava lá dentro, nem os próprios brasileiros que embarcavam na euforia mundial, tinha-se a sensação de que nós éramos a nova China (que aliás, na minha opinião e outra furada – mas isso é papo pra outro dia). Com isso vieram os BRICS e a capa da Economist com o Cristo decolando (vergonha alheia).

Aliás, sobre essa capa, eu publiquei no Facebook na época um repúdio dizendo que os gringos não sabiam o que realmente se passava no país. Que aquela capa era um absurdo. Eu comparava o que diziam na mídia com as coisas que eu via e experienciava nas minhas viagens a trabalho pelo Brasil. Uma coisa não batia com a outra.

Daí a Dilma foi eleita em 2010. Estava na cara. Lula, com sua popularidade, surfando na “marola” da crise, elegia quem quisesse. Ela começou até bem… peitou um monte de gente, substituiu um monte de ministro. E opa, acho que chamaram ela pra uma conversa de canto e explicaram como as coisas são feitas por lá e ela acalmou.

Mesmo pra quem não viaja e via como o país estava, a partir de 2012 já dava pra perceber que as coisas não iriam melhorar. Em 2013 – ano dos protestos na Copa das Confederações –  as coisas já ficaram mais claras (foi quando decidi sair do país), mas foi em 2014, ano da copa, que a coisa ficou óbvia.

Mais protestos anti-copa e anti-governo. O negócio estava realmente indo pro buraco no Brasil. Lembra do “não vai ter Copa”? Teve Copa e vai ter Olimpíadas, meu camarada. Aceita que dói menos. Isso não é o povo que decide. Escrevi, também no Facebook na época, a não eficácia desses protestos tendo em vista as eleições 3 meses depois. Era lá a hora de protestar, no voto. A alternância de poder é essencial para qualquer democracia. Mas para mim, estava clara a reeleição da Dilma.

Tão clara, que escrevi no meu primeiro “paper” na faculdade no Canadá, que o governo seria reeleito e o Brasil iria pro buraco. Está documentado. Não é fato de ser “Mãe Dinah”, mas sim de observar o curso das coisas desde Sarney, Collor, Itamar, FHC, Lula e Dilma.

Assisti com um sentimento de “eu já sabia” a Dilma ser reeleita, o dólar ir “pras cucuias” e o PIB mais uma vez negativo. Agora, a capa da Economist era o Cristo caindo. É brincadeira?

Agora, assisto a um show de manipulação e briga pelo poder, com o povo dividido (lembra do dividir para conquistar?) e se matando entre “coxinhas e petralhas”. Denúncias e mais denúncias. Tudo sendo tratado como futebol ou religião. É a “Jihad” brasileira. PSDB ou PT. Enquanto isso, o PMDB continua mandando no Brasil, desde sempre. São os mesmos. Tudo amigo, cúmplices. Adversários na faixada e companheiros de quadrilha nos bastidores. E o povo acreditando que tem opção. Eu não consigo ver ninguém, situação ou oposição (se e que ela existe), com capacidade de mudar o país.

Mais uma vez fiquei triste vendo os protestos da semana passada. A manipulação, o pão e circo. Espero estar errado, mas acho ineficaz ao longo prazo. Sabe no que deu? Lula ministro. Sabe mais? Vai romper com a Dilma, se aproximar do PMDB, fazer reformas e ser eleito novamente em 2018. A única esperança é o juiz-Batman Sérgio Moro.

Juiz Sérgio Moro
Juiz Sérgio Moro

Recebi uma foto da minha mãe com meu pai indo pra Paulista domingo passado. Confesso que me emocionei. Deu até vontade de estar junto. Ele com 75 anos e ela com 62. E muita esperança. Ele já entregava panfletos anti-ditadura na época. Quase foi preso. Olha só. Ainda tá nessa.

Veja, meu amigo, que não é questão de partido político, ideologia ou qualquer causa nobre que você possa pensar. É sobre o poder e a sua perpetuação. Chegar lá e ficar. Mamar na teta do Brasil e não largar mais. Pra não falar que são todos, de vez em quando surge uma figura que nos dá esperança (pelo menos até descobrirem algo), tipo o Romário. Quem imaginaria, mas o baixinho foi ser bandeira no Senado na causa das pessoas com deficiência, entre outras. E o Tiririca? Que eu saiba, não fez nada de importante mas não faltou a uma sessão e ainda se recusou a ser envolvido em corrupção. Já é um começo.

Previsões? Vai continuar tudo na mesma, infelizmente. Não importa se a Dilma sai ou não, se o Lula é preso (ah, ministro não da mais?) ou se vai ter mais 50 protestos. Quem entra (ou é eleito) e Temer, Aécio, Lula… Nada muda. São os Sarneys e Cunhas da vida que ninguém tira de lá. Procura foto deles aí… dá pra ver esses caras em Brasília desde sempre. Desde novinhos. Daqui a pouco são seus filhos e netos (aliás, Aécio já é Neto – do Tancredo – 1985).

A economia brasileira tem ciclos de picos e vales, tudo especulação. A realidade é que e um país sub-desenvolvido, com pouca ou quase nenhuma importância mundial econômica e sem previsões de mudança num médio ou longo prazos. Tem um estudo que diz que se os EUA parassem de crescer e o Brasil crescesse 4% ao ano, levaria 200 anos para atingir o mesmo nível de infra-estrutura. Eu não tenho 200 anos sobrando, por isso me mudei. E os EUA não param.

Sendo assim, daqui a pouco “melhora”. Depois piora de novo. E assim vai. Com os mesmos no poder, porque o povo vota. O povo gosta. Você pode não gostar e se importar, mas a maioria não concorda com você. A prova é tudo isso aí. Se são 6 milhões na rua, são 194 milhões em casa.

Se protestar ou bater panela te faz bem, continue. Sério. Meus pais tão nessa também. A esperança é o que move o ser humano, e o que nos mantém vivo. Não perca não. Ainda tem o Moro pra ajudar agora.

A saída? Tem três: o aeroporto, a forca ou lentamente. A primeira foi a minha, a segunda não comento pra não incitar  a violência e a terceira é cada um fazendo a sua parte. Agindo e influenciando os outros a agirem de forma correta. Votando conscientemente e cobrando aqueles em que você deu o seu voto para cumprirem suas promessas. Confiando e apoiando a justiça. Passando tudo isso aos seus filhos através do exemplo (sem furar fila, gato-Net, DVD pirata, etc). As duas primeiras são mais rápidas e essa terceira demora… bem provável que só seu neto comece a ver algo diferente, se começarem agora.

Eu saí pelo aeroporto mas estou exercendo também a terceira opção, pelos meus amigos e familiares. Também quero um Brasil decente para meus netos passearem e para os amigos que ficarem por aí. A mudança real vem do povo pra cima, não o inverso. O povo tem que mudar, ele que tem o poder. Isso demora. Quer ver? Espere as próximas eleições.


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